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CORAGEM E CONFORMISMO

Dificilmente a coragem será considerada a maior virtude em nossos tempos. Mesmo idolatrada em filmes e peças publicitarias, a coragem é uma característica incômoda para a sociedade atual.


A nossa sociedade tem produzido de modo muito eficiente pessoas individualistas, competitivas, incapazes ou pouco dispostas a desenvolver empatia e comportamentos cooperativos com outras pessoas. Pessoas com preguiça para fazer um cumprimento rotineiro banal ou um gesto de cortesia que a afaste da sua rota individual apressada.


A coragem, que é o abandono de padrões emocionais, sociais e materiais já conquistados e estáveis, gera novas possibilidades de sentir e pensar, criando liberdade para desenvolver novas capacidades de modo geral, pessoais e interpessoais. Esta liberdade, forjada pelo risco, torna o indivíduo crítico a um suposto êxito social e material estabelecido por parâmetros externos. As nossas verdadeiras necessidades são individuais e não podem ser simplificadas.


É muito comum na minha prática diária conviver com pessoas com “êxito” profissional, que cumpriram as expectativas sociais que imaginavam existir acerca do seu desempenho e que, mesmo assim, experienciam a angustia do incompleto e do vazio. Pessoas que não conseguem preencher-se através do próprio desejo e que se habituaram a viver com os desejos coletivos.


O conformismo, que em nossos tempos tornou-se praticamente compulsório (eu sou assim mesmo, eu não posso fazer nada quanto à isso), é o grande obstáculo a ser vencido por quem deseja abandonar padrões já conhecidos e se aventurar pelo desejo próprio. O conformismo é constantemente encorajado (paradoxo verbal) pelas pessoas que estão na mesma situação inerte, pois para um grupo é muito desconfortável enxergar no outro a coragem que não possui.


Por esta razão, o aventureiro que se prepare para enfrentar a oposição de todos que o cercam. Conhecerá a reprovação dos que não entendem escolhas baseadas em desejo individual, vistas como absurdas. Neste caminho perde-se a admiração externa, o reconhecimento e a sensação de ser aceito. Tudo isso gera o desconforto de não ter as referências externas nas quais sempre confiou. Surge então uma possibilidade, um espaço, para o desejo pessoal íntimo.


Dar sentido à nossa existência é tarefa pessoal e intransferível, que envolve esforço, desprendimento e coragem para seguir orientações provenientes do nosso mundo íntimo, com o qual devíamos ter mais intimidade. Para sermos capazes de seguir estas orientações primeiro necessitamos conhece-las.

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