CIÊNCIA
E RELIGIÃO
Albert Einstein
Parte
II
Não
seria difícil chegar a um acordo quanto ao que
entendemos por ciência. Ciência é
o esforço secular de reunir, através do
pensamento sistemático, os fenômenos perceptíveis
deste mundo, numa associação tão
completa quanto possível. Falando claramente,
é a tentativa de reconstrução posterior
da existência pelo processo da conceituação.
Mas, quando pergunto a mim mesmo o que é a religião,
a resposta não me ocorre tão facilmente.
E, mesmo depois de encontrar uma resposta que possa
me satisfazer num momento particular, continuo convencido
de que nunca consigo, em nenhuma circunstância,
criar um acordo, mesmo que muito limitado, entre todos
os que refletem seriamente sobre essa questão.
De início, portanto, em vez de perguntar o que
é religião, eu preferiria indagar o que
caracteriza as aspirações de uma pessoa
que me dá a impressão de ser religiosa:
uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser
aquela que, tanto quanto lhe foi possível, libertou-se
dos grilhões, de seus desejos egoístas
e está preocupada com pensamentos, sentimentos
e aspirações a que se apega em razão
de seu valor suprapessoal.
Parece-me que o que importa é a força
desse conteúdo suprapessoal, e a profundidade
da convicção na superioridade de seu significado,
quer se faça ou não alguma tentativa de
unir esse conteúdo com um Ser divino, pois, de
outro modo, não poderíamos considerar
Buda e Spinoza como personalidades religiosas. Assim,
uma pessoa religiosa é devota no sentido de não
ter nenhuma dúvida quanto ao valor e eminência
dos objetivos e metas suprapessoais que não exigem
nem admitem fundamentação racional. Eles
existem, tão necessária e corriqueiramente
quanto ela própria.
Nesse sentido, a religião é o antiqüíssimo
esforço da humanidade para atingir uma clara
e completa consciência desses valores e metas
e reforçar e ampliar incessantemente seu efeito.
Quando concebemos a religião e a ciência
segundo estas definições, um conflito
entre elas parece impossível. Pois a ciência
pode apenas determinar o que é, não o
que deve ser, está fora de seu domínio,
todos os tipos de juízos de valor continuam sendo
necessários. A religião, por outro lado,
lida somente com avaliações do pensamento
e da ação humanos: não lhe é
lícito falar de fatos e das relações
entre os fatos. Segundo esta interpretação,
os famosos conflitos ocorridos entre religião
e ciência no passado devem ser todos atribuídos
a uma apreensão equivocada da situação
descrita.
Um conflito surge, por exemplo, quando uma comunidade
religiosa insiste na absoluta veracidade de todos os
relatos registrados na Bíblia. Isso significa
uma intervenção da religião na
esfera da ciência; é aí que se insere
a luta da Igreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin.
Por outro lado, representantes da ciência tem
constantemente tentado chegar a juízos fundamentais
com respeito a valores e fins com base no método
científico, pondo-se assim em oposição
a religião. Todos esses conflitos nasceram de
erros fatais.
Ora, ainda que os âmbitos da religião e
da ciência sejam em si claramente separados um
do outro, existem entre os dois fortes relações
recíprocas e dependências. Embora possa
ser ela o que determina a meta, a religião aprendeu
com a ciência, no sentido mais amplo, que meios
poderão contribuir para que se alcancem as metas
que ela estabeleceu.
A ciência, porém, só pode ser criada
por quem esteja plenamente imbuído da aspiração
e verdade, e ao entendimento. A fonte desse sentimento,
no entanto, brota na esfera da religião. A esta
se liga também a fé na possibilidade de
que as regulações válidas para
o mundo da existência sejam racionais, isto é,
compreensíveis à razão.
Não posso conceber um autêntico cientista
sem essa fé profunda. A situação
pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem
religião e aleijada, a religião sem ciência
e cega.
Embora eu tenha afirmado acima que um conflito legítimo
entre religião e ciência não pode
existir verdadeiramente, devo fazer uma ressalva a esta
afirmação, mais uma vez, num ponto essencial,
com referencia ao conteúdo efetivo das religiões
históricas. Esta ressalva tem a ver com o conceito
de Deus. Durante o período juvenil da evolução
espiritual da humanidade, a fantasia humana criou a
sua própria imagem 'deuses' que, por seus atos
de vontade, supostamente determinariam ou, pelo menos,
influenciariam o mundo fenomênico. O homem procurava
alterar a disposição desses deuses a seu
próprio favor, por meio da magia e da prece.
A idéia de Deus, nas religiões ensinadas
atualmente, é uma sublimação dessa
antiga concepção dos deuses. Seu caráter
antropomórfico se revela, por exemplo, no fato
de os homens recorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem
a realização de seus desejos.
Certamente, ninguém negará que a idéia
da existência de um Deus pessoal, onipotente,
justo e todo-misericordioso é capaz de dar ao
homem consolo, ajuda e orientação; e também,
em virtude de sua simplicidade, acessível as
mentes menos desenvolvidas. Por outro lado, porem, esta
idéia traz em si aspectos vulneráveis
e decisivos, que se fizeram sentir penosamente desde
o início da história. Ou seja, se esse
ser é onipotente, então tudo o que acontece,
aí incluídos cada ação,
cada pensamento, cada sentimento e aspiração
do homem, é também obra Sua; nesse caso,
como é possível pensar em responsabilizar
o homem por seus atos e pensamentos perante esse Ser
'todo-poderoso'? Ao distribuir punições
e recompensas, Ele estaria, até certo ponto,
julgando a Si mesmo. Como conciliar isso com a bondade
e a justiça a Ele atribuídas?
A principal fonte dos conflitos atuais entre as esferas
da religião e da ciência reside nesse conceito
de um Deus pessoal. A ciência tem por objetivo
estabelecer regras gerais que determinem a conexão
recíproca de objetos e eventos no tempo e no
espaço. A validade absolutamente geral dessas
regras, ou leis da natureza, e algo que se pretende
- mas não se prova. Trata-se sobretudo de um
projeto, e a confiança na possibilidade de sua
realização, por princípio, funda-se
apenas em sucessos parciais. Seria difícil, porém,
encontrar alguém que negasse esses sucessos parciais
e os atribuísse a ilusão humana. O fato
de sermos capazes, com base nessas leis, de predizer
o comportamento temporal dos fenômenos de certos
domínios, com grande precisão e certeza,
está profundamente enraizado na consciência
do homem moderno, ainda que possamos ter apreendido
muito pouco do conteúdo dessas leis. Basta considerarmos
que as trajetórias planetárias do sistema
solar podem ser antecipadamente calculadas, com grande
exatidão, com base num número limitado
de leis simples. De maneira similar, embora não
com a mesma precisão, é possível
calcular antecipadamente o modo de funcionamento de
um motor elétrico, de um sistema de transmissão
ou de um aparelho de rádio, mesmo quando estamos
lidando com uma invenção inédita.
É bem verdade que, quando o número de
fatores em jogo num complexo fenomenólogico é
grande demais, o método científico nos
decepciona na maioria dos casos. Basta pensarmos nas
condições do tempo, cuja previsão,
mesmo para alguns dias à frente, é impossível.
Ninguém duvida, contudo, de que estamos diante
de uma conexão causal cujos componentes causais
nos são essencialmente conhecidos. As ocorrências
nessa esfera estão fora do alcance da predição
exata por causa da multiplicidade de fatores em ação,
e não por alguma falta de ordem na natureza.
Penetramos muito menos profundamente nas regularidades
que prevalecem no âmbito das coisas vivas, mas
o suficiente, de todo modo, para pelo menos perceber
a existência de uma regra necessária. Basta
pensarmos na ordem sistemática presente na hereditariedade
e no efeito que provocam os venenos - como o álcool,
por exemplo - no comportamento dos seres orgânicos.
O que ainda falta aqui é uma compreensão
de caráter profundamente geral das conexões,
não um conhecimento da ordem enquanto tal.Quanto
mais o homem esta imbuído da regularidade ordenada
de todos os eventos, mais firme se torna sua convicção
de que não sobra lugar, ao lado dessa regularidade
ordenada, para causas de natureza diferente. Para ele,
nem o domínio da vontade humana, nem o da vontade
divina existirão como causa independente dos
eventos naturais.
Não há dúvida de que a doutrina
de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais
jamais poderia ser refratada, no sentido verdadeiro,
pela ciência, pois essa doutrina pode sempre procurar
refúgio nos campos em que o conhecimento científico
ainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido,
porém, de que tal comportamento por parte dos
representantes da religião seria não só
indigno como desastroso. Pois uma doutrina que não
é capaz de se sustentar à "plena
luz", mas apenas na escuridão, está
fadada a perder sua influência sobre a humanidade,
com incalculável prejuízo para o progresso
humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores
de religião precisam ter a envergadura para abrir
mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é,
renunciar a fonte de medo e esperança que, no
passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos
dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de
se valer daqueles forças que são capazes
de cultivar o Bom, o Verdadeiro e o Belo na própria
humanidade.
Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa mais difícil,
mas incomparavelmente mais valiosa. Quando tiverem realizado
esse processo de depuração, os professores
da religião certamente hão de reconhecer
com alegria que a verdadeira religião ficou enobrecida
e mais profunda graças ao conhecimento científico.Se
um dos objetivos da religião é libertar
a humanidade, tanto quanto possível, da servidão
dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o
raciocínio científico pode ajudar a religião
em mais um sentido.
Embora seja verdade que a meta da ciência é
descobrir regras que permitam associar e prever os fatos,
essa não é sua única finalidade.
Ela procura também reduzir as conexões
descobertas ao menor número possível de
elementos conceituais mutuamente independentes.E nessa
busca da unificação racional do múltiplo
que a ciência logra seus maiores êxitos,
embora seja precisamente essa tentativa que a faz correr
os maiores riscos de se tornar uma presa das ilusões.
Mas todo aquele que experimentou intensamente os avanços
bem-sucedidos feitos nesse domínio é movido
por uma profunda reverência pela racionalidade
que se manifesta na existência. Através
da compreensão, ele conquista uma emancipação
de amplas conseqüências dos grilhões
das esperanças e desejos pessoais, atingindo
assim uma atitude mental de humildade perante a grandeza
da razão que se encarna na existência e
que, em seus recônditos mais profundos, é
inacessível ao homem. Essa atitude, contudo,
parece-me ser religiosa, no mais elevado sentido da
palavra. A meu ver, portanto, a ciência não
só purifica o impulso religioso do entulho de
seu antropomorfismo, como contribui para uma 'espiritualização'
religiosa de nossa compreensão da vida.
Quanto mais avança a evolução espiritual
da humanidade, mais certo me parece que o caminho para
a religiosidade genuína não passa pelo
medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé
cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento
racional.Neste sentido, acredito que o sacerdote, se
quiser fazer jus a sua 'sublime' missão educacional,
deve tornar-se um professor.
"Ciência e Religião" (1939-1941)
- Págs. 25 a 34. Einstein, Albert, 1870-1955
Título original: "Out of my later years."
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